O desaparecimento da engenheira Patrícia Amieiro Franco

Os próximos dias podem trazer à luz um dos mais recentes e bem guardados segredos da polícia carioca: o desaparecimento da engenheira Patrícia Amieiro Franco, que hoje completa nove meses. O governo do estado terá de decidir se entrega ou não ao Instituto Nacional de Perícias, o INP, da Polícia Federal, os fragmentos de balas encontrados no carro da moça por peritos do Rio. As chances de pintar uma saia justa são grandes.

O governo pode encher-se de brios, bater no peito e dizer que não quer saber desse papo. Os exames feitos por seu Instituto de Polícia Técnica são mais que suficientes para o inquérito. Se tomar esse caminho, pelo que se ouve na polícia, sairá fortalecido o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, policial federal licenciado. Estará, então, consolidado o mistério que encobre até agora essa triste história.

Beltrame teria motivos pessoais e profissionais para não transferir a seus antigos companheiros (muitos subordinados) a busca de respostas que sua polícia até agora lhe nega. Na consistente avaliação de alguns policiais, a isso se soma o tamanho que a história tomou e o número dos que nela se envolveram – algo que, exposto ao sol, pode mover meia PM do trono.

Patrícia desapareceu numa madrugada de junho, depois de separar-se de seus amigos na festa Rio Noites Cariocas, na Urca, onde havia bebido além da conta. Do relato de policiais com longa experiência em investigações e perícia colhe-se que a moça furou uma blitz-caça-níquel (aquelas em que há apenas uma viatura, dois PMs e dois ou três cones), em São Conrado. (Na época, a repressão à mistura bebida-direção estava no auge. Por iniciativa individual, em poucas horas PMs que patrulhavam ruas acabaram com um estoque de 968 bafômetros nas lojas Casa&Vídeo. Precisa dizer o que pretendiam?).

Pelo rádio, essa informação – mais o modelo do carro e a placa – foi transmitida à dupla que montava guarda com uma viatura postada à direita do viaduto sobre o canal da Joatinga. Na versão desses policiais, quando deixou o túnel do Joá e chegava ao viaduto a moça foi recebida a tiros, perdeu o controle do carro e precipitou-se barranco abaixo em direção ao canal. A partir daí, o mistério se adensa. De várias conversas é possível alinhavar o seguinte:

– A primeira perita a chegar perto do caso pretendeu definí-lo como acidente de trânsito; examinou o carro duas vezes, mas não percebeu as marcas de tiros na lataria. Descobriu-as o irmão de Patrícia, quando o carro já estava na oficina.

– Foram chamados, então, dois peritos que confirmaram a natureza das marcas e a presença de resíduos de chumbo e cobre nos orifícios, e iniciaram exaustiva pesquisa. Mais: pelo tipo de fecho, o relógio e uma pulseira da moça – encontrados junto às pedras, no fundo do canal – jamais poderiam ter deixado seus pulsos sem que ela ou alguém os tirasse.

– Descobriram, pelos registros do rastreamento das viaturas via satélite, que naquela madrugada o ponto junto ao viaduto estivera excepcionalmente movimentado – nada menos de sete veículos da PM haviam visitado o local.

– Apuraram pelo GPS que um dos PMs de guarda no local dirigiu-se ao hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, onde ficou seis minutos (em depoimento diria que buscou socorro para um distúrbio de pressão). Dali seguiu para a favela Terreirão, no Recreio dos Bandeirantes, área controlada por milícia, que domina também uma favela em Campo Grande, na Zona Oeste da cidade.

– Observaram que os bancos de viaturas que haviam estado na área estavam anormalmente limpos, para veículos que, com certa frequência, transportam feridos. Aplicaram luminol e encontraram vestígios grosseiros de água sanitária, substância que quebra moléculas do sangue a impede exames de DNA em amostras. Um escasso vestígio foi levado a testes. A pessoa que os realizou disse ter recebido ordens (não revelou a origem) de anunciar o resultado como “inconclusivo.

– À resposta idêntica chegou o funcionário encarregado de comparar os fragmentos de balas recolhidos no motor do carro de Patrícia com as marcas produzidas pelas armas dos PMs envolvidos.

A dupla de peritos aumentou a pressão, tentou contestar o laudo de balística e foi afastada do caso sob a vaga acusação de “querer aparecer”. Um deles foi transferido para Petrópolis, na região serrana. Funcionários que continuaram próximos do inquérito indicam que, desse ponto em diante, o ritmo do trabalho diminuiu. E oferecem exemplo: o resultado de um exame pericial foi depositado nos Correios (em plena greve dos carteiros), no Leblon, para ser entregue na Barra da Tijuca, distante cinco quilômetros.

Nos meses seguintes, um PM integrante da milícia que controla as favelas do Terreirão e a tal favela de Campo Grande visitada pelos PMs na noite do desaparecimento da engenheira contou a vários interlocutores uma história aterrorizante:

– No viaduto, quando perceberam o tamanho da lambança, os PMs pediram ajuda e começaram a desmontar o cenário do crime. Tentaram fazer crer que o corpo havia caído no canal e a correnteza o levara. Na verdade, teria sido levado para a favela de Campo Grande, esquartejado pela milícia e queimado com pneus.

Pouco depois de botar essa história a circular, o PM teria sido executado na Lagoa Rodrigo de Freitas. O crime confere. Não se sabe, porém, se a figura é a mesma ou se era o autor da versão. No lugar onde Patrícia sumiu há uma casa de frente para a cabeceira do viaduto. O vigia da casa nunca mais foi visto. Tomou rumo ignorado até por seus patrões. O mesmo ocorreu com um casal de catadores de recicláveis que, anos a fio, dormia sob o viaduto.

Nesta sexta-feira (13), o pai de Patrícia, Antônio Celso Franco, vai falar na rádio BandNews Fluminense FM. Ele já sabe praticamente tudo o que aconteceu à filha. Quer apenas o direito de dar registro digno ao fim que ela teve e carimbar o crime na testa de quem o cometeu.

Por isso, pediu ao ministro Paulo de Tarso Vannuchi, da secretaria especial de Direitos Humanos, que troque uma palavrinha com o governador Sergio Cabral. Com ou sem saia justa, Antônio Celso quer uma perícia para valer nos fragmentos de balas que saíram do carro de Patrícia. Ele já os viu em fotos e, como lhe disseram os peritos, ambos têm tamanho suficiente para revelar de que armas partiram.

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Fonte: Xico Vargas

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